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Comunicar com dignidade...

05/06/2011

Em tempos de novas tecnologias da comunicação, de mudanças quanto ao modo de comunicar, de estabelecer relações e de estreitar amizades, jamais podemos perder de vista que esses instrumentos, por mais sofisticados que sejam, devem estar a serviço do bem integral da pessoa humana.

Pondo-me a pensar sobre a dignidade da pessoa humana e os meios de comunicação social, pergunto-me: qual é o alcance da Declaração Universal dos Direitos Humanos em relação ao que lemos em seu art. 12º?: “Ninguém será sujeito à interferência na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a ataques à sua honra e reputação. Todo ser humano tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques”. E a Constituição Federal do Brasil de 1988, art. 5o , X, acrescenta: “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito à indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”.

É isso que está acontecendo? As informações que recebemos correspondem sempre à verdade? A fonte, a aquisição e a difusão das notícias e informações respeitam a dignidade da pessoa humana? Se aquele que comunica não estiver revestido de ética e reta intenção, sua informação não será verdadeira, não respeitará a dignidade do outro. Direitos e deveres da comunicação social devem desenvolver-se internamente à lógica da responsabilidade. Urge promover códigos deontológicos que respeitem os direitos fundamentais do ser humano (cf. Estudos da CNBB, 101, n. 8).

Os responsáveis pela imprensa deveriam levar em conta a verdade, a justiça e o bem comum. Um meio de comunicação (TV, rádio, jornal, revista, internet, etc.) não se torne instrumento que reduza as pessoas a categorias, manipulando-as por motivos escusos. “Como qualquer outro fruto do engenho humano, escreve Bento XVI em sua Mensagem para o 45º Dia Mundial das Comunicações Sociais, as novas tecnologias da comunicação pedem que sejam postas ao serviço do bem integral da pessoa e da humanidade inteira”. Assim sendo, é preciso comunicar com integridade e transparência, pois a falsidade e a falácia andam na contramão da verdade e da liberdade.

Se, por um lado, a sociedade tem direito a uma informação fundada sobre a verdade, por outro, o correto exercício desse direito exige que a comunicação seja, quanto ao objeto, sempre autêntica, correta e completa, dentro do respeito às exigências da justiça e da caridade; que ela seja, quanto ao modo, honesta e conveniente, quer dizer, que na aquisição e difusão das notícias observe absolutamente as leis morais, os direitos e a dignidade humana (cf. Catecismo da Igreja Católica, 2494).

Nem sempre é o que se verifica. Quantos “furos de reportagem” interferem diretamente na privacidade, na intimidade, na honra ou na imagem das pessoas! Causa indignação, muitas vezes, o modo como as pessoas são “puro objeto” de notícias escandalosas e infundadas. Como os fatos são distorcidos e manipulados! Sem muito compromisso com a “veracidade” do que se publica, os princípios éticos e direitos fundamentais são inescrupulosamente desrespeitados. Como proceder para coibir os abusos do “direito a não ser notícia” antes da comprovação dos fatos?

Não raras vezes se lê: “Imprensa relata os fatos, não os inventa”. E se os “fatos” relatados não passam de “boatos”, ou até de mentira, calúnia, difamação?

“Fato”, segundo o dicionário Aurélio, “é aquilo que realmente existe, que é real; coisa ou ação feita. “Boato” é “notícia anônima que corre publicamente sem confirmação; boatice, balela, zunzum”.

Quantos abusos no exercício da liberdade de expressão! Quantas almas feridas e destruídas em nome de sensacionalismos baratos, pouco ou nada se importando com a dignidade da pessoa!

Por que tanta sede, tanta fome de vender “boatos” por “fatos”? Para muitos, a “regra de ouro” é pouco lembrada: “Tudo aquilo que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles, pois esta é a Lei e os profetas” (Mt 7,12). Quem de nós gostaria do contrário? Em tempos de eleições políticas, causa tristeza e indignação a baixeza usada para combater os candidatos adversários. Não cabe ao jornalista ou ao profissional da imprensa, em nome da liberdade de expressão, insinuar, manipular ou inventar “fatos” e “boatos”...

Não cabe aos “donos” dos meios de comunicações sociais assumirem a função que compete à Justiça ou a Deus. “Quem és tu, que te arvoras em juiz do teu próximo?” (Tg 4,12). Quantas mortes causa a maledicência, a calúnia, a mentira, a difamação! Quantos ressentimentos e até ódio causa a língua falsa ou mentirosa! Ela é “cheia de veneno mortal” (cf. Tg 3, 1-12). Por isso, não basta reformar só a linguagem; é preciso começar pelo coração. Deus fez da “palavra” o seu meio predileto de revelar o seu amor. Jesus mesmo é a “Palavra” boa, saída do coração do Pai.

Por que, então, não devemos interferir na intimidade e na honra das pessoas? Simplesmente porque só Deus pode julgar, pois só Ele conhece a intenção e os segredos íntimos do coração humano. Não é tanto o “juízo” que devemos banir do coração quanto o “veneno do nosso juízo” (cf. Lc 6,37). Condenemos sempre o pecado, mas nunca o pecador!

Dom Nelson Westrupp, scj
Bispo Diocesano de Santo André - SP

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