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Diálogo inter-religioso: saiba como conviver em paz na diferença

27/01/2011
Da Redação | CN Notícias
 
O cenário quase sempre se repete: quando grupos religiosos diferentes se encontram, surgem cenários de tensão. E isso não apenas em temáticas doutrinárias – muitas vezes, os conflitos se agravam e podem se traduzir em situações de violência. Segundo um relatório anual da Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), África e Ásia são as regiões do globo em que esse contexto é mais salutar, embora haja focos espalhados por todos os cantos, em maior ou menor escala.

Tolerância, relação, diálogo, conhecimento recíproco: são essas as saídas apontadas por diversos especialistas para que o encontro entre crentes de religiões distintas não seja necessariamente sinônimo de violência.

Segundo o doutor em Ciência da Religião e professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), Roberlei Panasiewicz, uma das principais pontes que viabilizam o diálogo inter-religioso é o relacional. “Cada religião tem a sua percepção, a partir de seu horizonte cultural, acerca de Deus. Quanto mais conversarem entre si, melhor será a percepção que cada um terá acerca de sua própria fé, também se enriquecendo com a visão do outro”, afirma.

A doutora em Ciências da Religião e professora da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), Irene Dias de Oliveira, acredita que as saídas são várias, elencando especialmente o conhecimento do outro como condição fundamental para o diálogo. “Do próprio ponto de vista antropológico, enquanto não conhecemos, ficamos amedrontados; a tendência é ir ao encontro do outro com receios, reservas. Já o diálogo leva à comunhão, ao encontro, ao debate sem agressividade”, destaca.

Nada disso significa que seja preciso perder a própria identidade religiosa para que o diálogo com o diferente seja viável.

“Vou continuar quem sou, mas reconhecendo que o outro é tão importante quanto eu. O problema de fundo é partir para o reconhecimento do outro enquanto meu irmão. O risco existe quando a manutenção da minha identidade religiosa leva a obrigar que o outro seja igual a mim, de modo impositivo”, complementa Irene.

A tolerância é o direito sagrado de divergir, de ser, pensar, viver de modo diferente.

“É uma realidade difícil na esfera religiosa porque se está lidando com a forma de compreender e se relacionar com o Absoluto, em que cada um entende que a sua é a única verdadeira. A raiz da intolerância encontra-se em querer obrigar todos a pensarem do mesmo modo e não permitir que a diferença do outro apareça”, agrega Roberlei.

O professor cita o encontro entre João Paulo II e líderes de diversas tradições religiosas para orar pela paz, que aconteceu em Assis, em 1986, e foi convocado novamente por Bento XVI para outubro deste ano - 25 anos depois -, como exemplo de duas formas concretas de diálogo: a oração e a ética, buscando respostas para o questionamento: Como as religiões podem auxiliar conjuntamente a construir de modo efetivoi a paz no mundo?


Humanidade

Há correntes teóricas defensoras da ideia de que a religião é uma das grandes fontes de violência no mundo. No entanto, o problema real são as interpretações dos adeptos acerca do texto sagrado, da doutrina. Aí surge um desafio: apresentar e viver a religião como fator de contributo na sociedade, e não como algo que prejudica o corpo social.

“O que está em discussão é o ser humano. Deve-se unir em nome da causa humana, e daí a necessidade de conhecer profundamente o outro, não em abstrato, mas em concreto. Há uma humanidade que nos acomuna, e é esse princípio fundamental que deve levar a romper barreiras. É preciso ir ao encontro sabendo que o outro também é frágil, vulnerável, limitado pelas circunstâncias, assim como eu. É preciso notar que a verdade do outro não precisa necessariamente confrontar com a minha, mas que podemos dialogar em nome de um princípio comum, que é o bem da humanidade”, defende a professora Irene.

O etnocentrismo – tendência de achar que tudo do que é próprio é melhor que o outro – é uma das principais causas de fechamento ao diálogo, caracterizando-se como uma mentalidade que precisa ser combatida, caso se deseje que o diálogo inter-religioso seja frutuoso. Não é à toa que o professor Roberlei propõe dois critérios para assegurar a validez do argumento religioso: a preocupação com a vida e a busca da felicidade dos adeptos.


Sociedade

Na América Latina, o cenário apresenta uma crescente no embate entre iniciativas estatais e o pensamento cristão-católico, de tal forma que parece não serem mais reconhecidas as ligações histórico-culturais entre catolicismo e as nações do continente.

É normal que toda e qualquer religião demarque sua identidade, propondo uma cosmovisão - visão de mundo - para seus fiéis, através da resposta às perguntas básicas: De onde vim? Que faço aqui? Para onde vou?. No contexto global de pluralismo, o importante é que essa cosmovisão esteja aberta ao diálogo com outras religiões, cultura, governo, e até mesmo não crentes.

“A saída é mesmo o relacional, que vai oferecer melhores condições, perspectivas, para que a sociedade possa promover a solidariedade, a promoção de vida para todos. Minha perspectiva é que as religiões terão que aprender a conviver para que mundo tenha mais paz, para que a vida seja valorizada em todos os aspectos”, diz Roberlei.

Já o diálogo entre religião e Estado é uma realidade que precisa ser mantida constantemente, embora penda, às vezes, mais para um lado que para o outro. Aqui, o professor da Puc-Minas lembra que, caso haja uma opção religiosa oficial, as outras não podem ser excluídas; já se a opção oficial é inexistente, deve-se assegurar sempre o respeito recíproco.

O triângulo sociedade – religião – Estado precisa travar diálogo constante para que as diferenças sejam respeitadas. O respeito mútuo é fundamental para que as religiões vivenciem seu grande objetivo, que é aproximar o fiel de Deus, do transcendente, e auxiliar a sociedade no crescimento da solidariedade, da promoção da paz, da vida interpessoal.

“Aí surge a tolerância: aprender a conviver com as diferenças, não como ameaça, mas como valor. O outro, que é diferente de mim, apresenta uma visão diferente, que enriquece a minha”, finaliza o doutor.

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